O Destino que reuniu Dalí e Disney

Dalí trabalhando em Destino

Dalí trabalhando em Destino

Em 1945 tinha início uma parceria no mínimo inusitada: Walt Disney e Salvador Dalí. Poucos sabem, mas o pintor espanhol estava criando dentro dos estúdios Disney um curta de animação nos moldes do clássico Fantasia. Desde de que descobri a existência desse projeto, pesquisei bastante a respeito e hoje posso escrever esse post contando essa história.

Na época, Disney passava por um momento financeiro difícil após o fracasso de bilheteria de Fantasia, quando o estúdio perdeu uma linha de crédito do Bank of America. Sem outra opção, recorreu ao bilionário Howard Hughes e investiu na criação de Dumbo. A história do elefantinho foi um sucesso mas um ano depois, com o início da Segunda Guerra Mundial, o estúdio perdia o mercado europeu. Disney então insistiu que deveria apostar em qualidade, acreditando que criando uma nova animação como Fantasia faria com que crítica e público se interessassem pelo filme, gerando boas bilheterias.

O começo da lenda

Estudo de Dalí para Destino

Estudo de Dalí para Destino

Tudo começou quando Disney conheceu Dalí e sua esposa Gala em uma festa em Hollywood. Por mais estranho que pareça a primeira vista, se tornaram amigos e foi surgindo a vontade de criar algo juntos.  Logo começaram a trabalhar no conceito da animação.

Por um tempo, o projeto era um segredo até mesmo dentro da Disney. O plano original era criar um curta de seis minutos combinando animação com dançarinos ao vivo e efeitos especiais para um longa no estilo de Fantasia. Disney sugeriu a balada romântica Destino do compositor mexicano Armando Dominguez e a dançarina Dora Luz para a seqüência.

Desenho conceitual de Dalí

Desenho conceitual de Dalí

Mas a palavra “DESTINO” gerou tamanho entusiasmo em Dalí que o artista começou a criar conceitos e seqüências cada vez mais surrealistas, mudando o curso do projeto. Criou assim a história onde Chronos, personificação do tempo na mitologia grega, se apaixona por uma mortal.

Apesar da parceria, os dois amigos viam o curta de formas diferentes. Para Dalí, Destino era uma exposição mágica do problema da vida no labirinto do tempo. Para Walt Disney era somente uma simples estória sobre uma jovem garota em busca do verdadeiro amor.

Por mais incrível que possa parecer, Dalí se tornou praticamente um funcionário do estúdio. Chegava pontualmente às 9h30 e trabalhava nos desenhos para serem utilizados junto à trilha musical . Para ensinar a Dalí as técnicas de animação do estúdio foi chamado John Hench, artista que tinha em seu currículo participação em Fantasia e Dumbo.

A parceria entre o pintor catalão e Hench estava criando praticamente um novo conceito de animação, utilizando o método paranóico-crítico de Dalí. O conceito era apresentar ao espectador uma imagem que seria reconhecida como algo familiar e lentamente forçar a visualização de formas estranhas na imagem, que poderiam ou não revelar algo novo. Uma verdadeira viagem surrealista!

Depois de apenas oito meses de trabalho, 22 pinturas e 135 páginas de story boards, o projeto foi cancelado devido aos crescentes problemas financeiros dos estúdios Disney. Restaram dessa época apenas os 18 segundos animados por Hench na esperança de convencer o estúdio de seguir com o curta. A pequena amostra original do que seria Destino foi revelada ao público em Fantasia 2000, aumentando o interesse pela animação.

E finalmente o Destino

Cinqüenta e oito anos depois do início da produção original, Roy Edward Disney (sobrinho de Disney e produtor executivo do estúdio) decidiu retomar o projeto enquanto trabalhava em Fantasia 2000. O projeto foi retomado em 1999 pelos estúdios franceses da Disney com a produção de Baker Bloodworth e dirigido pelo animador Dominique Monfrey. Uma equipe de aproximadamente 25 animadores decifrou os storyboards de Dalí com a ajuda dos diários de Gala e com a participação do próprio Hench.

O resultado foi uma animação tradicional que inclui o trecho original de 18 segundos (a seqüência das duas tartarugas), mas que também contem algumas técnicas de animação mais modernas. Destino é uma viagem fantástica que enche os olhos de qualquer apaixonado por animação ou pelo trabalho de Dalí. Mesmo assim, fico imaginando se realmente o pintor tivesse dado um final a esse projeto. Com certeza, seria uma obra de arte única.

Destino foi finalizado para fazer parte do Fantasia 2006, mas como o projeto foi cancelado , a animação foi apresentada em diversos festivais causando grande impacto e críticas positivas, sendo indicado ao Oscar de Melhor Curta de Animação em 2003. Até hoje o curta não foi lançado nos cinemas ou em DVD, mas logicamente já caiu na rede faz tempo. Aproveitem e não tentem apenas entender a história. Apenas assistam várias vezes para apreciar o resultado.

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2 Respostas para “O Destino que reuniu Dalí e Disney

  1. Lindíssimo!
    Tão perfeito que me fez chorar…
    Obrigada por compartilhar.

  2. Por gentileza, envio-me para mim pois seu link está bloqueado pela reivindicação dos direitos Disney.
    Sou-lhe antecipadamente gratíssimo.
    Budu
    011 – 7423 3256

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