Bruce Wayne deveria ter se tornado Batman?

Quando li o título desse artigo no livro Batman e a Filosofia, logo vi que renderia uma boa discussão. Pra começo de conversa o que faria um dos mais ricos do mundo vestir uma fantasia de morcego e sair por aí dando porrada em bandidos???

Em Batman: Ano Um, obra prima de Frank Miller, vemos o mito nascer. O menino de sete anos assiste ao assassinato dos pais durante um assalto. Com o tempo, Bruce Wayne decide usar sua inteligência e fortuna para combater o crime nas ruas de sua cidade. Para isso, utiliza a figura de um morcego, animal que foi um de seus grandes medos da infância. Mas do ponto de vista moral, essa foi a melhor escolha para Bruce Wayne?

A primeira vista, tendemos a acreditar que a escolha de acabar com a criminalidade é moralmente correto. Mas o artigo discute as outras saídas para nosso bilionário. Mais uma vez, o livro recorre ao utilitarismo, doutrina moral onde deve-se agir sempre de forma a produzir a maior quantidade de bem-estar. O filósofo Peter Singer afirma que seres humanos tem a obrigação moral de ajudar ouros que estão sofrendo e morrendo por falta de necessidades básicas. É a partir de suas conclusões, que vamos analisar Bruce Wayne.

Começando o bate-boca

Imagine que você está passeando por um parque e vê uma criança se afogando no lago. Para você é fácil entrar e salvar aquela vida, mesmo que depois suas roupas ficam enlameadas. Isso porque o dano moral causado a você é muito pequeno, insignificantes na verdade, quando comparados a salvar a vida daquela criança. Vemos assim que é possível salvar uma vida a um custo moral muito baixo. Pensando assim, cidadãos ricos podem ajudar outras pessoas a um custo muito baixo. Basta deixar de comprar um cd, DVD, roupas caras e comidas finas. Esse princípio moral nos leva a concluir que desfrutar de luxos não é mais importante que salvar vidas humanas.

Bruce Wayne vive uma vida de sacrifícios em função de sua escolha de ajudar outros. Afinal, diariamente ele arrisca a própria vida para evitar que outras pessoas sofram o que ele próprio sofreu no passado. Mas para Singer, existem dois limites para essa doação. Uma versão é a forte, onde seríamos moralmente obrigados a doar até que cheguemos ao ponto que causaríamos a nós mesmos sofrimento igual ao que estamos ajudando. A versão moderada afirma que somos obrigados, do ponto de vista moral, a doar até chegar ao ponto de sacrificar algo moralmente significativo. Vamos então analisar as atitudes de Wayne frente à teoria de Singer.

Pela versão forte, o bilionário deveria doar a maior parte de sua renda para ajudar os necessitados, a menos que possa demonstrar que o acontece depois de se tornar Batman tem valor moral comparável com essa atitude. Se Bruce for bem sucedido como Batman, irá reduzir sofrimento de muitas pessoas. Mas esse resultado torna minúsculo perto do bem que a Wayne poderia fazer ajudando a população doando parte de com sua fortuna. “Isso é oposto à probabilidade de sucesso que ele alcançará vestindo-se como um morcego, lutando contra vilões com a ajuda de armas de alta tecnologia e mantendo a aparência de um playboy”.

Nos quadrinhos do Batman, várias vezes vemos Bruce fazer doações generosas para causas humanitárias. Mas sua fala na história Morte em Família (onde morre o chatinho do Jason Tood) dá uma pista de seu envolvimento. “Quando voltar a Gotham, mandarei outro cheque para ajudar e tentar esquecer o que vi aqui. Não sou diferente dos outros. Há um limite até para o que Bruce Wayne – e Batman – podem fazer”. Nessa afirmação ele mesmo não acredita na eficácia de suas doações, mas decide doar mais dinheiro para esquecer o que viu.

Mas se não fosse Batman, Bruce poderia doar ainda mais para a caridade? Dessa forma ele não contribuiria ainda mais para manter o sonho de seu pai? Afinal, não deve ser nada barato ter toda aquela tecnologia e ainda por cima viver como o exibido Bruce Wayne. Em resposta a isso, podemos pensar que a renda das Empresas Wayne garante a Bruce o dinheiro não só para ser Batman, mas também para manter doações em todo mundo. Com isso, os gastos com a máscara de playboy seriam pequenas e necessárias para um bem maior, que é manter a identidade de Batman secreta. Seria esse o argumento para a versão moderada de Singer?

Finalmente, a conclusão (ou não?)

Mas a verdade é que Bruce Wayne PRECISA ser Batman. Digo mais, quem existe de verdade é o Batman e não Bruce Wayne. Então, abandonar a vida de vigilante seria o sacrifício máximo que o herói poderia fazer em favor de outros. Bruce está disposto a doar, mas não a abandonar o que significar ser Batman. Seria um sacrifício moral a que ele não se permite.

Por um lado, concordo com a idéia que a fortuna de Bruce poderia ser mais importante para um bem maior do que a existência de Batman. Ao mesmo tempo, o Cavaleiro das Trevas é um símbolo que inspira e protege muitos. Escolha difícil essa de Bruce. Talvez ele esteja no caminho certo, ou seja tentando fazer as duas coisas.

O autor conclui o artigo com a teoria que Bruce se tornou Batman muito por ser imaturo na época. Se hoje, ele tivesse que tomar a mesma decisão provavelmente faria diferente e pensaria de forma utilitarista. Um exemplo claro dessa escolha foi novamente em Morte em Família, quando Batman teve que escolher entre salvar milhares de refugiados etíopes de um gás mortal ou impedir que o Coringa matasse Jason Todd (que já foi tarde). Batman escolheu evitar a morte e sofrimento da quantidade maior das pessoas. “Na verdade eu não tinha outra escolha”, reflete o morcegão no final da história.

Sendo assim, vemos que o mesmo modo de pensar que o teria impedido de se tornar Batman torna-se uma constante no Bruce Wayne mais maduro. O dilema moral que fica é complicado. “Devemos imitar o jovem Bruce Wayne e privilegiar os compromissos com aqueles que somos mais próximos, enquanto buscamos nossos próprios interesses? Ou, como o Wayne mais maduro, devemos estar preparados para sacrificar o bem-estar dessas mesmas pessoas, incluindo o nosso, tentando fazer o bem maior para o maior número de indivíduos?

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11 Respostas para “Bruce Wayne deveria ter se tornado Batman?

  1. Ainda não tive oportunidade de ler o texto original. Mas a pergunta que faço é quanto a eficácia do trabalho de vigilante, pois vemos que mesmo após décadas de combate ao crime, o mesmo não acaba, e ainda surgem super vilões. Não seria o próprio Batman a causa do surgimentos de vilões muito piores do que os que existiam antes dele? Muitas estórias sugerem que sim.

    Além do mais, a questão pode ser colocada na dicotomia Progressistas x Conservadores. Os últimos partem do princípio que o crime é principalmente resultado da escolha livre dos indivíduos, que sendo naturalmente maus, merecem ser violentamente reprimidos. Essa visão justificaria justiceiros.

    Mas o os Progressistas acreditam que o crime é principalmente causado por questões sociais, e nesse caso o Batman seria muito imoral, pois nada faria para combater as autênticas causas da criminalidade, atingindo apenas os sintomas.

    É claro que os motivos da criminalidade são mais complexos, e sempre envolvem os dois lados. Assim podemos ver que Bruce Wayne falha em sua parte, porque atacar problemas sociais não pode ser feito por mera caridade financeira, envolvendo necessariamente uma abordagem política do problema, ou um envolvimento direto com as instituições de caridade que sustenta, de modo a garantir sua eficiência.

    De qualquer modo, os autores a partir de Frank Miller sempre deixaram claro que os principais motivos da existência do Batman são traumas e neuroses, e que sua luta contra o crime é no fundo uma eterna vingança e um perpétuo tratamento de choque contra seu próprio trauma.

  2. Batman a partir dos anos 80 com o realinhamento de suas condutas/convicções (comparado ao Batman quase infanto-juvenil dos anos anteriores) se tornou um quase vingador. Parece que Frank Miller e os diversos roteiristas que escreveram histórias do Cavaleiro Negro nunca conseguiram resolver o dilema moral e o impacto negativo que causaria se Batman efetivamente matasse seus inimigos. É quase como no filme “crash” aonde toda tensão dos diversos núcleos nunca termina em morte/tragédia, sempre acaba se resolvendo de formas mais ou menos melancólicas, mas é como uma promessa que não se cumpre.
    Batman se tornou Batman para vingar a morte dos pais e porque provavelmente carregava já na infância uma personalidade patológica que abdica da vida social e afetiva em função de um objetivo particular, que exige persistência e entrega constantes (não adianta se tornar batman, tem que permanecer Batman).
    Em suma, Batman é um quase vingador que não consegue ultrapassar a linha (superego punitivo ainda não permite), tem prazer sádico nos espancamentos e no poder que sua condição lhe dá e sente culpa por isso, o que aparece nos dilemas morais subjacentes.

  3. Esse foi um bom argumento mais uma coisa Jason Todd Voltou e agora ele é o Capuz vermelho, personagem que antes era o coringa,abrigado pela sua ateção.

  4. Esse foi um bom argumento mais uma coisa Jason Todd Voltou e agora ele é o Capuz vermelho, personagem que antes era o coringa,abrigado pela sua atenção.

  5. Embora o artigo seja um tanto antigo (julho de 2009) achei interessante, tanto que gostaria de comentar alguns aspectos.

    Primeiro, Batman é um personagem ficcional, e portanto sua validade, efeito e análise deve ser feita a partir de seu próprio universo, e não do nosso universo, da realidade fora dos quadrinhos.

    No universo do Batman sua eficácia é clara, e a escolha, gastar todo dinheiro com a pobreza, e deixar os malucos e assassinos para a polícia, não seria eficaz. O dinheiro acabaria e os vilões continuariam a tomar conta da cidade.

    Esse é um dos motivos, das motivações, uma cidade tomada pela corrupção, em que o dinheiro destinado a ajudar as pessoas se perderia e não teria efeito.

    Mudar essa situação exige o Batman, o símbolo e signo que motiva outros a mudar e a lutar.

    Não é o primeiro signo/simbolo ficional a usar dessa capacidade de inspirar. É recorrente na ficção a imagem do herói solitário, que com sua luta, em condições difíceis, motiva os outros cidadãos, e os tira da inércia (Matar ou Morrer, fantástico filme com Gary Cooper, Duelo em OK Curral, com Henry Fonda, etc).

    No mundo real seria improdutivo, perigoso, e mesmo daninho ter um vigilante, e as experiências nesse sentido mostram que estes acabam corruptos ou desviados de seu propósito original. Mas personagens de ficção podem resistir e se manter íntegros, como o Batman, sem se modificar (por isso Batman nunca mata, ou perderia sua identidade).

    E este é outro problema na análise, no mundo real o tempo passa, no ficcional não.

    Embora as histórias pareçam ocorrer em seqüência temporal, isso é apenas uma “ilusão” (se é que se pode falar em ilusão nesse caso..:-), sendo que todas as aventuras do Batman, ou de heróis de quadrinho ou livros, ocorrem no mesmo período de tempo, sempre o mesmo.

    Sim, de tempos em tempos estes se adequam e se ajustam aos tempos modernos, ou o Batman teria mais de 70 anos..:-).

    Mas por isso mesmo se percebe que nada muda, e que é sempre o mesmo tempo: há alguns anos Batman conheceu o comissário Gordon, foi caçado, e agora está meio “aceito” pelas forças da polícia, mas sempre correndo riscos. Isso há 70 anos..:-)

    Por isso também o trabalho do Batman “parece não ter efeito, sempre tem mais bandidos, e corruptos”. Claro, se a criminalidade acabar em Gothan, a DC para de vender revistas.

    Mas é mais que isso, a criminalidade não acaba porque é sempre o mesmo período de tempo, em que Batman começa a caçar os bandidos. Se o tempo passasse no universo DC, veríamos a cidade cada vez menos violenta, os criminosos na cadeia, os cidadãos tomando as rédeas da cidade, e no final, se não a eliminação, uma melhora significativa.

    Isso seria possível em um filme, um “felizes para sempre”, ou quase. Mas não em quadrinhos, toda semana é preciso um adversário e uma história. Sempre a mesma situação, o mesmo ambiente, etc. O mesmo tempo.

    A cada revista ou história, temos o mesmo quadro: algum tempo no passado, Gothan estava muito pior, com a corrupção tomando conta da cidade, no momento presente, uma cidade com problemas, mas já em fase de correção, com bandidos, vilões e corruptos preocupados, alguns presos, cidadãos e policiais honestos tomando algum espaço, etc, tudo graças ao Batman, e no futuro a perspectiva de consertar Gothan. Mas jamais chegaremos, neste universo ficcional, neste futuro (apenas futuros “alternativos”, fora de cronologia para permitir novas idéias e graphic novels).

    Assim, Batman, no universo em que vive, fez a melhor escolha, e faz enorme diferença para sua cidade e para os habitantes. E, dado tempo suficiente, será o ponto de mudança de Gothan. Mas não veremos, claro, esse tempo, não há um “episódio final” para histórias do Batman.

    Um abraço.

    Homero

  6. Homero, concordo plenamente!
    Abraço

  7. Algo importante e que muitas vezes é ignorado quando o Batman é que analisado ele é muito mais eficaz do que parece ao combater o crime em Gotham por um aspecto: o medo, que funciona tanto como estratégia de combate, como também em efeito “network”, dificultando a atividade criminal em toda Gotham.
    Há várias histórias em que isso é mostrado, na quais os acontecimentos são relatados do ponto vista do cidadão comum, para quem o Batman é uma figura mítica, praticamente sobrenatural. Um dos melhores exemplos disso está em uma das animações no DVD Gotham Knight.
    Quanto a questão que ele deveria usar sua fortuna para aparelhar melhor a polícia, a própria HQ responde mostrando que a polícia de Gotham é muito corrupta. Além disso, existe a questão dos super-vilões, que a polícia não teria como enfrentar de qualquer forma.
    Se por um lado o medo ajuda a reduzir a atividade criminal em Gotham, por outro lado, mostra o grande problema da existência do Batman no mundo real – ele teria que matar. Por dois motivos: para que o medo fosse realmente efetivo e porque não matar torna a missão dele incrivelmente difícil.
    Para mim, o grande atrativo que o Batman exerce sobre o leitor como personagem nos quadrinhos, é que ele é “apenas” humano, num mundo em que existe gente com super-poderes, e mesmo assim, faz uma diferença tremenda.
    Inevitavelmente, sempre que vejo alguém alegando que o Batman faria mais (e melhor) deixando o crime para a polícia e se comportando como um burguês convencional, penso que essa atitude é muito “gerencial”, típica de gente que não quer se envolver (e nem resolver) os problemas.

  8. O Batman é muito mais útil do que simplesmente despender sua fortuna em doações. Primeiro, pq Bruce Wayne faz isso. Segundo, pq a meta de ser o Batman fez com que ele dedicasse especial atençao à forntuna de seu pai, cuidando sempre para que a mesma continuasse lucrativa e hoje até ter multiplicado esta fortuna. Terceiro, doações não resolvem os problemas que o Batman enfrenta. Quarto, Batman é muito eficaz, sim. para vermos, basta comparar a Gotham de antes do Morcego com a atual.

  9. Frase do filme Batman Begins:
    Não é o que você é por dentro que lhe define, mas sim oque você faz.

    Acho que isso define o significado de Batman tanto para o mundo real quanto para o fictício.

  10. Saudações.
    A análise é interessante, contudo é obra de alguém que acredita em utopias ainda…
    Ficcional ou não, a doação de dinheiro não teria efeito em uma cidade em que a corrupção impera. Estou mentindo? Se toda a verba doada pela iniciativa privada e pelo Estado realmente chegassem ao destino, estaríamos hoje enfrentando problemas sociais?
    Boa parte dos valores doados por Wayne seriam desviados (ou são). Certamente fez a escolha por entender que não seria suficiente tal medida, assim como a repressão solitária também não traz resultados positivos. A polícia como um todo não é vista como algo agradável muitas vezes, mas sabemos que há necessidade dela enquanto o Estado é ineficiente.
    Apesar da motivação criada por conta de uma tragédia pessoal, o combate do morcego não se restringe em bater em marginais desprovidos do amparo do Estado… Se assim fosse, não resistiria tanto tempo… seria simplório demais para ter tantos fãs.
    Para quem conhece, sabe que dos crimes, a corrupção sempre foi o seu pior inimigo e para esse mal decretou guerra desde o início… Entre os exemplos, cito o episódio do ataque ao jantar onde estavam políticos, o antigo comissário corrupto e a máfia chefiada por Falcone em “Ano Um”, onde colocou de forma memorável “Senhoras e Senhores… vocês comeram bem! Comeram a riqueza de Gotham … seu espírito! O Banquete acabou! De hoje em diante… Nenhum de vocês estará a salvo!”.
    Creio que ilustra muito bem onde está a falha e é uma declaração de guerra a sistema podre que produz criminosos em todas as classes sociais…. É um personagem íntegro em uma cidade de trevas, que tem consciência de que não tem como vencer a batalha, mas não deixa de lutar e atacar onde está verdadeiro inimigo…

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