Capela São João Batista: um tesouro esquecido

Quando eu era criança, um dos passeios que fazíamos com muita freqüência era ir ao Parque da Cidade. Na época, era um lugar lindo onde podíamos brincar, correr, fazer trilhas e nos divertir a vontade. Eu me sentia o verdadeiro Indiana Jones.

Mas estranhamente, foi uma visita que fiz muitos anos mais tarde que deixou a experiência mais marcante. Nesse dia, percebemos que a capela, que sempre permanecia fechada, estava aberta à visitação. Quando entrei, fiquei espantada. Era um verdadeiro tesouro esquecido. Tirei muitas fotos, anotei tudo que podia e pensei em um dia investigar mais sobre o assunto. Nunca tive tempo para isso e esse desejo permaneceu esquecido até essa semana, quando encontrei as fotos daquela manhã de 1999. Aliás, são elas que ilustram o post de hoje.

O Parque da Cidade

Vista da frente da Capela (

Vista externa da Capela São Sebastião

Localizado na Gávea, zona Sul do Rio de Janeiro, o Parque da Cidade ocupa uma área de 470.000m² que oferece um amplo espaço de lazer com trilhas e lagos. Os visitantes podem conhecer também o Museu Histórico da Cidade que no seu acervo atual inclui cerca de 20 mil peças, entre elas: o trono de D. João VI, esculturas de Mestre Valentim, gravuras de Debret, pinturas do século XIX, mobiliário da época e a aquarela tombada “Vista Interior da Praça do Commercio”.

Infelizmente, o estado de conservação e a falta de segurança tem sido uma reclamação constante dos visitantes do local, afastando muitos turistas. Uma verdadeira perda para o Rio de Janeiro.

Capela de São João Batista

Mural com completo

Mural da Capela São Sebastião

Anexa ao Museu Histórico da Cidade encontra-se a Capela São João Batista. Com capacidade para trinta pessoas, foi construída em 1920 a pedido de João de Carvalho Macedo, proprietário do solar. Até a época em que a propriedade pertenceu à família Guinle, a capela era utilizada para cultos fechados.

Em 1972, a Associação de Amigos do Museu Histórico da Cidade convidou o pintor baiano Carlos Bastos para pintar os painéis retratando a vida e morte de São João Batista.

Mais personalidades retratadas na Capela

Personalidades retratadas na Capela

O artista decidiu utilizar pessoas que se destacaram no cenário cultural e político no país no momento, para representar as figuras sacras. Assim, São João Batista ganhou as feições de Caetano Veloso, a pintora Djanira se tornou Santa Isabel, Marina Montini era Salomé segurando a cabeça de São João Batista e Pelé foi retratado como um anjo de asas azuis. Além disso, Di Cavalcanti, Dorival Caymmi, Vinícius de Moraes, Jorge Amado, Gal Costa, Moraes Moreira, Flávio Cavalcanti, Marta Rocha, Orlando Villas-Boas, Genaro de Carvalho, Zanini, Adolfo Bloch, Ibrahim Sued e o então presidente da República Garrastazu Médici se tornaram coadjuvantes da história do santo.

Era o começo de uma grande polêmica.

Reprodução do mural antes das mudanças

Reprodução do mural antes das mudanças

A igreja logo se posicionou contra a utilização de artistas famosos para representar os personagens santos, alegando que a finalidade das figuras sacras era motivar as pessoas a meditar e rezar. Tendo um rosto ligado a conceitos não religiosos isso distrairia os fiéis e dificilmente conseguiria tais resultados.

Em 13 de junho de 1972, o Jornal do Brasil noticiou que o Monsenhor Guilherme Schubert, represente da Comissão Arquidiocesana de Arte, foi até a capela avaliar se a presença dos murais permitiriam a liberação do local para atividades religiosas. O Monsenhor fez restrições e no final ficou acordado que sairiam as asas de anjo de Pelé e os rostos de Caetano Veloso e Djanira, pois esses retratavam figuras religiosas. Mesmo assim, o representante da igreja não garantiu a liberação da Capela. “Comunicarei ao Cardeal D. Eugênio Sales que até o final da semana o mural já estará modificado, mas a decisão sobre a reabertura ou não da capela dependerá diretamente dele” afirmou Schubert.

Presença de Médici foi apenas uma das polêmicas

Médici: mais polêmicas

Como pode ser visto no mural existente hoje, todas as exigências foram cumpridas. Mas os problemas não terminaram por aí. Neusa Fernandes, diretora do Museu exigiu que Carlos Bastos apagasse do painel a imagem de Médici e o artista se recusou a fazer. A polêmica se espalhou quando o jurista Sobral Pinto também se posicionou contra a presença do presidente no painel.

A polêmica fez com que os murais ficassem inacabados. Algumas fontes dizem que Bastos decidiu não continuar a obra e abandonou o projeto. Já Zélia Gattai no livro A Casa do Rio Vermelho, conta outra versão:

Imagem de Gal Costa sobreviveu à censura

Gal Costa sobreviveu à censura

“Os murais, que ainda precisavam de retoques, ficaram inacabados. Ao chegar para trabalhar certa manhã, como habitualmente fazia, Carlos Bastos encontrou a porta da capela trancada e lacrada. Cometera a heresia de misturar aos santos, pecadores comunistas, os mais perigosos: Jorge Amado, Vinicius de Moraes, Di Cavalcanti, Caetano Veloso, Djanira… Ao mesmo tempo, Carlos Bastos colocara entre eles o presidente Medici, tido e havido como inimigo dos comunistas, presidente das perseguições, das prisões e das torturas. Carlos não era político, de política e de seus partidos ele nada entendia, sua única intenção fora a de retratar os amigos de sua admiração e de seu bem-querer, sem restrições, e pessoas em evidência na época, nada mais que isso”.

Por pressão da igreja e descaso dos governantes, a capela permaneceu fechada ao público até de 1972 até 1997.

Sobrou pouco do anjo Pelé

Sobrou pouco do anjo Pelé

Até hoje, os painéis estão inacabados e com as marcas das mudanças que o artista foi obrigado a fazer. Vendo a obra, é possível observar que o processo de alteração quando comparamos uma reprodução da imagem original com o que está nas paredes. Pelé, por exemplo, teve parte do seu corpo apagado restando um borrão de tinta, uma das mãos e uma perna do antigo anjo.

A Capela São João Batista está aberta a visitação de terça a sexta-feira, das 10h às 16h; sábados, domingos e feriados, das 10h às 15h. De acordo com informações obtidas com a administração do local, caso a capela esteja fechada, peça a um funcionário do Museu para acompanhá-lo. Mais informações pelo telefone 2294-5990.

Para saber mais:

Informações e obras de Carlos Bastos

Associação dos Amigos do Museu da Cidade


Anúncios

3 Respostas para “Capela São João Batista: um tesouro esquecido

  1. Querida, passei para connhecer seu blog. Ele é bem legal, parabéns! Morei no Rio 17 anos, estou fora há 2, e não conheci a Capela. ela parece incrível! Quem sabe numa dessas idas não dou uma passadinha lá… bjus

  2. Amei!!!
    Seu blog está muito legal, Fátima. Eu fico com vontade, às vezes, de criar um blog pessoal, mas já tenho tanto trabalho com os meus blogs “profissionais” que acho que não daria conta. Mas é muito bom ler um blog como seu, relaxante e descompromissado. Bem vinda ao mundo dos blogeiros.

  3. Fatima como sempre escrevendo muito bem.Parabens pelo blog.
    Adoramos
    Beijos
    NF

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s