Capote no Kansas

Como todo jornalista, aprendi logo no início da faculdade a importância de A Sangue Frio. A obra prima de Truman Capote é um dos livros que criaram o chamado jornalismo literário. Assim, foi imediato o meu interesse por Capote no Kansas de Ande Parks e Chris Samnee publicado pela editora Devir.

Ao contrário do que se espera, os quadrinhos não trazem mais uma biografia do autor ou uma nova versão da história da família Clutter e de seus assassinos. O álbum mostra um relato romanceado de parte da investigação de Capote na pequena Holcomb, trazendo inclusive o choque cultural que o afetado autor sente ao tentar se envolver com os moradores da região do interior do EUA. Mas o foco não está nos detalhes da apuração jornalistica e sim nos sentimentos e no envolvimento emocional que Capote vai criando com os personagens de seu futuro romance de não-ficção.

A trama não tem a pretensão de ser fiel aos fatos históricos e viaja pelo processo criativo de Capote de forma envolvende, rápida e interessante. Toda em preto e branco, a arte de Chris Samnee abusa de sombras e contrastes trazendo mais drama e beleza aos fatos.

Entretanto, não é possível ler Capote no Kansas sem ter um conhecimento prévio do romance.Um exemplo é Nancy, uma das vítimas da chacina, que aparece várias vezes durante a obra conversando com Truman. Conforme o jornalista vai levantando os dados sobre sua vida, esses encontros vão ilustrando o processo de construção da personagem na mente do autor. São conversas que também trazem ao leitor a dor da perda da vida e dos sonhos dessas pessoas. Em nenhum momento isso é esclarecido ao leitor, que pode até mesmo acreditar que Nancy não foi assassinada. Para os leitores americanos, isso não é problema já que a história é bastante conhecida por lá. Mas para os brasileiros, isso é um obstáculo sério para o entendimento da obra. Talvez a solução para esse problema cultural fosse um pequeno prefácio na edição nacional.

Enfim, pra quem conhece e admira a obra de Truman Capote, a HQ traz mais um ponto de vista humano dos fatos através das experiencias do autor. Essa é uma visão não apresentada no livro, uma vez que o autor não participa de sua narrativa. Só isso já vale, e muito, a leitura.

A Sangue Frio

Em 1959, o brutal assassinato de quatro pessoas da família Clutter no Kansas causava comoção nos EUA. O prisoneiro Richard Hickock recebeu a informação de um colega de cela que um fazendeiro de Holcomb guardava uma grande quantia de dinheiro em casa. Quando foi libertado da prisão, se uniu ao amigo e ex-presidiário Perry Smith e planejou o assalto. Entretanto, não encontraram dinheiro na casa. Para não deixar testemunhas ou pistas, amarraram pai, mãe e dois filhos cada um em um cômodo da casa e os mataram de maneira cruel. Um crime brutal e sem sentido que seria perfeito, se o mesmo companheiro de cela de Hickock não revelasse a polícia o que sabia, causando a prisão e posterior execução dos dois assassinos.

Uma nota no New York Times sobre o caso chamou a atenção de Truman Capote. O jornalista propôs a revista The New Yorker um artigo sobre os fatos que envolviam o crime. Capote viajou para o local do crime e pretendia escrever uma reportagem sobre a reação cidade pacata ao crime brutal. Conforme ia se aprofundando na apuração, percebeu a riqueza do material humano que tinha nas mãos. Com sua precisão de jornalista, apurou detalhes da vida das vítimas, sua rotina e seus amigos. Não satisfeito, visitava os assassinos no corredor da morte e tornou-se amigo e confidente de Perry Smith. Seu envolvimento com os dois criminosos foi tão grande, que Truman foi escolhido por eles para acompanhar a execução em 1965. Uma verdadeira imersão no fatos que demorou cinco anos para ser concluída.

O resultado foi A Sangue Frio, um dos livros que fundaram o jornalismo literário, gênero que combina a objetividade de uma reportagem e os recursos da narrativa de ficção.

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Uma resposta para “Capote no Kansas

  1. O comentário vai, não para o HQ, mas para o fato que deu origem ao livro e ao filme, com Robert Blake no papel de Perry Smith. O que para nós, brasileiros, nos dias atuais, parece ser algo ‘comum e trivial’, não o foi para os moradores da pacata Holcomb, no Kansas, até porque morte alguma, e principalmente a de forma cruel, deveria ser tolerada como coisa ‘comum e trivial’. Vale a pena ler o livro e assistir ao filme e tomar pé da situação. Nenhum crime deveria ser tolerado como algo trivial.

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