House, Holmes e a Filosofia

Acreditem se quiser, mas quando comecei a assistir ao House eu realmente não tinha notado suas semelhanças com Sherlock Holmes. Até que um dia me chamou atenção o número do apartamento do médico: 221B. Para todo fanático por Holmes isso acende imediatamente uma luzinha no cérebro. A partir daí, notei tantas citações ao grande detetive inglês, que me senti meio idiota de não percebido algo antes. Tantos anos de histórias de mistério e deixar passar evidências tão óbvias!

Então, eis que na semana passada me deparo com o livro House e a Filosofia- Todo mundo mente na livraria Nobel. Nem folhei o exemplar, simplesmente o agarrei e decidi comprar. Para minha surpresa, encontrei um artigo que justamente comparava Sherlock Holmes e House. Mais perfeito impossível.

O capítulo A lógica e a adivinhação em Sherlock Holmes e House escrito por Jerold J.Abrams começa pelo básico, ou seja, as semelhanças entre os dois gênios:

  1. O sobrenome House significa “casa” é sinônimo de home. Essa é a forma que Sherlock pronuncia seu nome, ou seja, sem o “s” no fim da palavra;
  2. James Wilson tem as mesmas inicias de John Watson;
  3. Wilson e House moram um tempo juntos, assim como Holmes e Watson foram colegas de quarto em Baker Street;
  4. Holmes toca violino e House piano;
  5. House é dependente de vicodin e Holmes usa a cocaína como forma de manter o cérebro alerta;
  6. Mesmo sendo por motivos diferentes, os dois usam bengalas;
  7. O personagem de Sherlock Holmes foi baseado em um médico chamado Joseph Bell;

Dedução ou adivinhação?

“House não se baseia no personagem de Holmes. Em certo sentido, ele é de fato Holmes”. Com essa afirmação, o autor começa a destacar a série de semelhanças no comportamento dos dois. A primeira é a forma de falar do médico, que muito parece com a fala de um detetive. Basta lembrar quantas vezes o ouvimos perguntar a equipe “Quem é o suspeito?” ou afirmar “Resolvi o caso”. House e Holmes enxergam seus “clientes” da mesma forma, ou seja, como suspeitos e mentirosos. Para desvendar o mistério é preciso se afastar deles e investigar seus pertences, suas casas e suas gavetas. Tal e qual um detetive de verdade.

Um dos pontos interessantes do artigo é a revelação que nem Holmes nem House resolvem seus casos a partir de dedução. Se os dois usassem dedução nunca errariam, porque na dedução quando as premissas são verdadeiras, a conclusão deve ser verdadeira também. A explicação é simples se usarmos duas premissas: “Todos os médicos comentem erros” e “House é médico”. A conclusão é obvia “House comente erros”. Não há o que duvidar nas duas seqüências, logo a probabilidade de erro é nula.

Mas no caso de House e Holmes, os dois trabalham com (boas) conjecturas que nem sempre são imediatamente fruto da verdade. A diferença entre os dois é que Holmes NUNCA admitiria um erro enquanto House tenta a todo momento minimizá-los, tirando de cada um resultados que vão compor sua nova verdade. “House nunca deixa perceber que comete erros. Comete-os o tempo todo, mas sabe que cada engano o aproxima mais da verdade. Compreende que a  falibilidade de sua lógica é essencial para o método – e House, pelo menos nesse sentido, é superior ao seu alter ego Holmes”.

Vendo dessa forma, Holmes está errado quando afirma que utiliza a dedução para resolver seus casos, mas acerta quando chama seu método de “raciocínio reverso”. Tudo começa com um resultado no presente que causa um efeito e apartir desse é possível imaginar os caminhos que levaram a essa conclusão e chegar a causa de tudo. Como não é possível ter certeza do que é verdade nesse caminho, erros podem acontecer e não há como deduzir e garantir que a conclusão está correta. Parece familiar ao quadro branco de House?

De acordo com o autor, é possível explicar o “raciocínio reverso” através do conceito de Charles S.Peirce chamado “abdução” (não tem nada de X-Files na história, fiquem calmos), que é definido como a “lógica da adivinhação”. A explicação do livro é bem didática e revela exatamente o método tanto do detetive quanto do médico:

O fato surpreendente C é observado
Mas, se A for verdadeiro, C é uma questão óbvia
Portanto, há motivo para se suspeitar que A é verdadeiro

Lendo assim, parece muito óbvio relacionar a maneira com que nosso médico  resolve seus mistérios, não é? Ou seja, apesar de seus acertos, House e Holmes trabalham um bocado com adivinhação. “A abdução não visa a mostrar, de uma vez por todas, uma única conclusão exata. A abdução apenas oferece uma hipótese razoável de qual poderia ser a conclusão. É mais um tiro no escuro; mas às vezes, não muito mais” (pag.58).

O artigo conta também com uma comparação das deduções de House com as teorias de Umberto Eco bastante interessante, mas que fogem um pouco do assunto que estou abordando já que em nada se relaciona com Sherlock.

No fim, foi uma leitura interessante e reveladora sobre métodos e semelhanças entre os dois. Logo vou encarar os outros capítulos do livro, que me parecem um pouco mais complexos e muito mais loucos.

Deixo aqui a conclusão do artigo, que me pareceu bem adequada para o fim da quinta temporada. “A verdadeira tragédia de House é a razão abdutiva correndo solta pela mente de um gênio louco que, como todos os gênios loucos, acaba se autodestruindo”.

Citando os clássicos

Durante vários episódios de House é possível observar citações a nomes e situações dos livros de Sherlock Holmes. O livro cita uma, mas pesquisando um pouco mais encontrei várias outras referências  interessantes:

  1. O nome do atirador que acerta House no episódio No reason é Moriarty, nome do maior inimigo de Sherlock. Assim como conto “O Problema Final”, os dois estão feridos no final do confronto, já que o Moriarty do médico é alvejado por um segurança do hospital. Assim como Holmes, House volta a vida;
  2. No episódio piloto, uma das pacientes se chama Adler, nome da mais importante personagem feminina das histórias de Holmes;
  3. Watson e Wilson tem irmãos que desapareceram por um tempo e se tornaram moradores de rua;
  4. Em Hunting (S02e07) é possível ver que House, assim como Holmes, vive em um apartamento de número 221B;
  5. No episódio All In (S02e07), House atende uma paciente com o nome de Esther Doyle, que tem o mesmo sobrenome do criador de Holmes;
  6. Em Family (S03e08), House é visto com um cachimbo, um velho hábito de Sherlock;
  7. No episódio It’s a Wonderful Lie (S04e10), o médico recebe de amigo oculto um livro chamado Conan Doyle;
  8. Em Joy to the World (S05e11), House joga fora uma edição de um livro raro do Dr. Joseph Bell. Como já dito Bell foi a inspiração de Doyle para Sherlock Holmes. No mesmo episódio, Wilson tenta explicar o presente contando a história do envolvimento de House com uma mulher chamar Irene Adler.

Links

House x Holmes
House – Holmes of House MD

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2 Respostas para “House, Holmes e a Filosofia

  1. Grande artigo Kitty!

  2. Incrível, gostei muito do artigo, realmente House e Holmes são mais parecidos que pensei hehe.

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