Lost Girls

Que Alan Moore é um gênio, todo nerd de quadrinhos sabe. Repetir isso é bobagem, mas mesmo assim eu repito: o cara é um gênio! Pensando nisso, nos últimos meses tratamos de aumentar nossa coleção do auto-intitulado mago. Entre as aquisições está o audacioso e polêmico Lost Girls, minha leitura no momento.

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À primeira vista, a beleza da edição e as ilustrações magníficas de Melinda Gebbie já chamam a atenção até do leitor mais desprevenido. Mas quando se dá uma primeira folheada na obra, as coisas começam a se tornar cada vez mais estranhas e interessantes.

Publicado no Brasil pela editora Devir, Lost Girls une personagens clássicos da literatura: Dorothy, de O Mágico de Oz, Alice, de Alice no País das Maravilhas, e Wendy, de Peter Pan. Já adultas, as três se encontram em um hotel austríaco às vésperas da Primeira Guerra Mundial. A cada capítulo a troca de confidências  vai reinventando as conhecidas histórias infantis e tornando os elementos originais em metáforas para o despertar sexual das garotas.

Definitivamente não é uma história para puritanos e muito menos para criancinhas.Querem alguns exemplos? Alice, que agora usa nome Lady Fairchild, quem seduz Dorothy e Wendy iniciando um relacionamento a três. Durante esses encontros amorosos, descobrimos que o espantalho, o leão e o homem de lata, são referências às personalidades dos diferentes homens que passaram pela vida de Dorothy durante sua adolescência na fazenda. Wendy, conta seus encontros sexuais com um menino de rua chamado Peter Pan e os “meninos perdidos” em um parque. Essas aventuras são sempre observadas por um pedófilo que descobrimos ser o Capitão Gancho. Alice narra sua história de abusos sexuais onde usava o espelho como escape e depois as aventuras com outras meninas do internato.

E isso é só o começo das recordações ricamente ilustradas e BEM explícitas da série. Já li até o segundo volume e existe conteúdo erótico em praticamente cada página. São casais homossexuais e heterossexuais, orgias, fetiches, incestos e pedofilia.

Pornografia e arte

Como toda obra de Moore, Lost Girls tem como bônus diversas citações visuais, referências a fatos históricos e até mesmo frases das histórias originais. Criar essa obra pornográfica (ou erótica como o autor descreve) não foi um processo fácil e consumiu 16 anos de trabalho de Alan Moore. Foram tantos anos de pesquisa e dedicação ,que Moore vai lançar em outubro 25.000 Years of Erotic Freedom (“25.000 anos de liberdade erótica”). Um livro de arte onde estão reunidas algumas das ilustrações mais provocantes da história da arte, apresentando a evolução da pornografia em diversas culturas da pré-história até hoje para discutir pornografia, moral e arte.

É fácil concluir que Lost Girls foi polêmica desde seu lançamento em 2006. Nos Estados Unidos, a editora Top Shelf foi alvo de duras criticas. Muitas lojas optaram por não vender o álbum com medo de serem acusados de possuir e comercializar pornografia infantil. Logicamente, o resultado foi inverso e, mesmo a caixa com os três volumes custando salgados US$ 75,00, a primeira tiragem de dez mil exemplares esgotou no primeiro dia em que chegou às livrarias americanas.

No Reino Unido, o problema foi parar nos tribunais. Os advogados do Great Ormond Street Hospital, instituição inglesa para quem o escritor J.M. Barrie deu os direitos de publicação de Peter Pan, alegaram que Alan Moore precisaria da sua permissão para publicar a obra. Por causa disso, a editora assinou um acordo com o Hospital que não iriam publicar e/ou vender Lost Girls no Reino Unido até o final de 2007, quando expiraram os direitos autorais da instituição sobre a obra.

O mais engraçado é que no Brasil muitas vezes encontrei os volumes entre quadrinhos infantis e quase sempre abertos e ao alcance dos pequeninos. É o velho hábito de acreditar que sendo quadrinho, é coisa de criança!

Quem não leu a série pode pensar que no fim, tudo é um pretexto para pornografia. Tenho que admitir e concordar que até certo ponto sim. Mas, repetindo as palavras do próprio Alan Moore, a inovação de Lost Girls foi provavelmente ser um dos primeiros livros eróticos que verdadeiramente surgiu no mercado de massa, orgulhosamente declarando ser pornografia.

Só para complementar:

Entrevista de Alan Moore à BBC sobre Lost Girls

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Uma resposta para “Lost Girls

  1. Leitura muito edificante e séria 🙂

    Imagina se fosse Branca de Neve, Rapunzel e Chapeuzinho Vermelho 😛

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